A chuva miudinha que lhe caíra bem dentro da alma, encharcando-a até ao tutano, afastara de vez a borrasca daquele amor que só a fazia infeliz.
Atónita, questionava como tinha sido possível afeiçoar-se daquele modo a quem não a merecia, não a respeitava, não lhe dava valor, desconfiava dela... Mas o facto permanecia: ela não conseguia desligar-se da ideia que tecera dele, daquele Ele que só os seus olhos turvados enxergavam...E contudo via, sabia que aquele não era o seu trilho.
Até que um dia, as palavras certas ditas por alguém incerto, como que por magia, retiraram o véu que a impedia de vê-lo assim, inteiro, sem maquilhagem, sem faz-de-conta. Olhara-o enfim através das palavras esquivas e da fuga constante.Do aproximar arredio do seu corpo feito voz, sonoridade, mas vazio, perdido.Vislumbrava agora um homem com resquícios de meninice nos olhos claros e indefinidos, entre o verde azul acinzentado indeciso, impreciso, fugaz. Como ele: indefinido entre o bem-querer e o não saber o que queria, volátil, nevoento, sempre disponível para o jogo de palavras, o jogo do toca-e-foge, não fosse o diabo tecê-las e ele ficar apanhado.
Se ela sabia que se dera a quem a não queria, agora afastava-se, por livre vontade, de cabeça erguida e sorriso a desabrochar. Finalmente havia esperança.
Lá fora, não sabia onde, haveria um renascer.
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